18 outubro 2005

Crónicas de um exilado

Hoje, por uma vez, Londres rendeu-se ao estereótipo e a manhã levantou-se com nevoeiro. Mas a cidade que eu conheço está muito distante dos estereótipos, das manhãs de nevoeiro, dos guarda-chuvas, do sotaque afectado ou da pontualidade dos comboios. Na cidade que eu conheço quase nunca há nevoeiro, chove menos do que se pensa, metade da população é estrangeira e a outra metade engole um terço das palavras quando fala, e os comboios não precisam de bombas para chegarem atrasados.
O único estereótipo que sobrevive é o da cidade industrial, com o seu aspecto cinzento, a arquitectura repetitiva e sem imaginação, a falta de cor, o cheiro nauseabundo no metro. É a Metropolis de Fritz Lang, provando que a realidade pode ser muito mais assustadora que a fantasia.
Mas Londres é também a cidade cosmopolita por excelência, não há uma única nacionalidade ou etnia que não esteja representada, nem nenhuma religião ou seita, por toda a cidade há sinagogas, mesquitas, templos budistas e hindus, igrejas, catedrais protestantes ou católicas, basílicas ortodoxas... Pelas ruas é notória esta multiculturalidade, véus turbantes, túnicas, trajes tradicionais, há de tudo um pouco. É um planeta inteiro representado dentro de uma cidade, mas tudo isto é só no exterior, porque por trás da fachada esconde-se a hipocrisia, o racismo, a xenofobia e a intolerância religiosa. A busca de uma identidade nas tradiçõe e na religião trai a falta de identidade real de que esta sociedade de facto sofre, desde os nativos, que neste universo de culturas não sabem qual é a sua, até aos exilados que nunca serão de cá mesmo os que cá nasceram, mas também nunca serão de lá.
A fauna londrina define bem a personalidade da cidade, nos céus pairam milhões de pombos e corvos, e pelas ruas à noite vêem-se centenas de raposas, enquanto que nos parques predominam os esquilos. É uma cidade de necrofagos, predadores e roedores.

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