O imaginário, o sonho, o desejo são três componentes com as quais de dia e de noite convivemos. Estas durante o dia, parecem mais remotas, devido ao stress quotidiano, caracterizado por pessoas, trânsito, colegas de trabalho, e cadeia hierárquica. Ao longo do dia, o nosso biorritmo leva-nos a um caminho que nos exige uma compensação, escape. A chegada ao refúgio, entendendo por este o nosso território, leva-nos a uma (re) organização menos disciplinada e mais autónoma, levando-nos a tudo aquilo que... imaginamos, sonhamos e desejamos.
O Escape
A evolução dos tempos trouxe consigo novas formas de brincar. Destas podemos destacar as consolas de jogos que, ao contrário do que possamos pensar, não têm nas crianças os seus principais utilizadores. Pois, também os mais velhos acabam por investir quantidades bastantes significativas do seu tempo, na conquista de um melhor “ranking” nos quadros de classificações. Uma das possíveis razões para esta utilização em massa, pode estar residente na experiência sonhadora para que nos remetem. Ao contrário do mundo real, a nossa performance e sucesso só depende de nós e não dos outros. Há um enorme apelo à imaginação, fantasia… na medida em que nos transporta para um mundo do faz de conta, onde tudo é possível e as oportunidades ilimitadas. No momento preciso em que nos sentamos, extasiados, para jogar, tudo à nossa volta parece desvanecer… e o nosso “eu” mais íntimo sai e “encarna” na personagem de jogo. É aqui que começa a aventura! E podemos entender a consola de jogos como o cordão umbilical que nos liga a essa mesma aventura fantástica, ao sonho, …sonho este que é real e passível de ser manipulado.
PlayStation, Freud e a Mente Humana
Consolas de jogos há muitas, é verdade, mas há uma que se destaca entre as demais, essa é a PlayStation. Esta “máquina de sonhos” foi lançada no mercado em meados da década de noventa pela multinacional japonesa SONY, com bastante êxito. A Playstation é mais do que uma mera invenção tecnológica, é também uma forma de libertar as nossas pulsões recalcadas pelo quotidiano, segundo Freud causa de inúmeras perturbações, dando-nos asas para ser o que almejamos… pelo menos durante o desenrolar do jogo. Projectamo-nos num herói que tudo pode, um David que enfrenta mil um Golias, bem diferente do dia-a-dia da maioria das pessoas. Certamente Freud não desdenharia a utilização da PlayStation na sua Psicanálise.
A Estética Publicitária da PlayStation e o Surrealismo(*)
Basta assistir a dois ou três spots televisivos da Playstation, para descortinarmos uma estética subjacente à mensagem que apela ao sonho, fantasia e aos nossos desejos mais íntimos, muito colado ao Movimento Surrealista. Segundo André Breton, teórico deste movimento, no seu “Manifesto do Surrealismo” de 1924, define o surrealismo como “…automatismo psíquico puro, livre de toda a força da razão, e independente de qualquer intenção estética ou moral…”. Influenciado pela Psicanálise de Freud, este movimento debruça-se sobre o homem e o seu inconsciente, buscando o “eu” mais profundo, as inibições e obsessões, os sonhos aparentemente desarticulados e a sua significação. O sonho e a visão alucinada são vistos como formas tão válidas de conceber a realidade como o pensar e agir guiados pela razão. Sonho e Realidade diluem-se, confundindo-se, e segundo Breton, esta fusão daria origem a uma “realidade superior” mais rica e estimulante que a realidade quotidiana. Essa “realidade superior” é o conceito utilizado pela Playstation… Em que o único limite é o sonho! Dos principais artistas deste movimento podemos enumerar: Max Ernest, Picábiá, Magritte, Chirico, Salvador Dali, Paul Klee e Juan Miró.
(*) fonte "apontamentos da cadeira de Estética da Publicidade" , Prof Dr. Eduardo Paz Barroso
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