26 março 2006

South Park - a polémica mais recente

A série South Park tem andado a causar alguma polémica nos EUA. Ao que parece, num dos episódios da série é satirizada a Igreja da Cientologia (sim, aquela do Tom Cruise).

Como reacção às criticas feitas àquela religião a série vais perder uma das suas personagens mais emblemáticas, ou seja, o Chef. E porquê? Exactamente porque aquela personagem era interpretada por Isaac Hayes que, por pertencer à visada igreja, acabou por pedir a sua demissão. São as seguintes as razões por ele apresentadas para justificar o seu comportamento: “Há um lugar para a sátira, mas ela tem que ter um limite. Deve acabar onde a crença religiosa dos demais começa”. (in Jornal de Notícias nº 287, ano 116, de 25-03-2006)
A resposta foi pronta e partiu de um dos criadores de South Park, Matt Stone - “Esta atitude está 100% relacionada com o seu envolvimento na Igreja da Cientologia, e é curioso ver que ele diz isso agora depois de ter ganho muito dinheiro fazendo piadas com os cristãos”. (ibidem)

De facto, Matt Stone parece ter razão. Então o Chef andou tantos anos pela série, viu serem criticadas tantas pessoas e tantas religiões e vem agora, ao fim de tanto dinheiro ganho mostrar-se ofendido por terem sido criticadas crenças religiosas na série!? (Hello!!)
A justificação de Hayes parece-me uma clara tentativa de assumir uma atitude ética que não corresponde às suas convicções. De facto, pareceu-lhe sempre bem que, nomeadamente, os católicos fossem criticados, nunca lhe tendo sido ouvida uma palavra sobre esse assunto. Tornando-se ele o alvo das críticas, ganhou subitamente uma atitude de respeito por todas as religiões.

Esta é uma atitude interessante a ter perante a vida… Hipócrita, mas interessante. Mostra o nosso instinto de sobrevivência e a necessidade de aceitação pela sociedade das atitudes que tomamos. A necessidade de pertencer ao grupo dos fortes e esmagar os fracos.
Teria soado tão melhor se o actor se tivesse pura e simplesmente indignado por ter sido criticado, em vez de tentar assumir uma atitude perante a vida que não é a dele. A posição dele é, pura e simplesmente, a de que não faz mal criticar outras religiões desde que ninguém critique a dele. Não me parece ser esta a ideal, mas é a posição dele. Assim sendo, para quê fingir que é herói e que aprecia o respeito por TODAS as religiões?

Parece quase uma atitude adolescente. Na adolescência, face às inseguranças sentidas, procuramos sempre que as nossas decisões sejam legitimadas pelas pessoas que são especiais e importantes nas nossas vidas. O que é de esperar é que, passando essa fase da vida, as pessoas tenham conseguido formar a sua personalidade o suficiente para não precisarem mais de ficar sempre submetidos ao crivo da maioria. Porque se em adultos não conseguimos ter solidez suficiente para nos colocarmos inabalavelmente junto das nossas convicções, contra a maioria se tal for necessário, não me parece que consigamos nunca atingir os nossos objectivos. Não me parece sequer que consigamos idealizar algum objectivo…

A maioria tende a defender-se a si própria, contra tudo e contra todos, independentemente de ter ou não razão nas opções que toma e nas convicções que adopta. Eles são a maioria, não precisam de ter razão. E qual deve ser a nossa reacção face às convicções da maioria? Não me parece que a nossa atitude deva ser nunca de subserviência. De adoptar um ponto de vista que não é conforme com quem nós somos só para que a maioria nos adopte como pertencendo ao grupo. Somos seres humanos, caramba! Pensamos por nós próprios. Já não somos só instinto animal. Temos que aprender a lutar e a resistir contra aquilo que achamos que não está correcto. Temos que… Pensar. É exactamente isto que temos que fazer, parar para pensar. Pensar sobre tudo e sobre todos. Pensar sobre o que nós somos e sobre o que queremos ser.

Assim, pensando, parece-me muito mais lógico ter convicções próprias, que não precisam de ser coincidentes nem radicalmente opostas às da maioria. Só precisam de ser próprias. Precisam de ser nossas. E nossas porque acreditamos nelas, e acreditamos que são as melhores. E não porque nos são impostas. E de certeza que não por apenas parecer bonito para a maioria ter uma determinada opinião sobre um determinado assunto.

Eu das maiorias tenho medo, desconfio, paro, analiso e penso, ao invés de aceitar cegamente tudo o que eles me querem alimentar…

Já dizem os Sepultura: “REFUSE, RESIST”.

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