“See, I think drugs have done some good things for us. I really do. And if you don’t believe drugs have done some good things for us, do me a favour. Go home tonight, take all your albums and all your tapes and all your CDs and burn them. Cause you know what? All, the musicians that made all that great music that has enhanced your lives throughout the years, really fucking high on drugs.”
Tool - Aenima - Third Eye
Esta é uma teoria interessante… E tenho a certeza que eles falam com conhecimento de causa. Também, não é de esperar outra coisa, seria extremamente difícil atingir tamanho grau de perfeição como o que eles põem nas músicas, sóbrios. E isto eu não contesto. E não contesto essencialmente por experiência própria. Não tenho um pingo de jeito para as artes… E Portanto, sinto na pele a dificuldade de ter que criar (quando ocasionalmente tenho que o fazer). É difícil, devo admitir, mas… Nada não teria a mesma piada e não me daria o mesmo gozo se fosse fácil.
Eu tenho uma noção aproximada das minhas limitações para saber até onde é que conseguirei chegar com a criação. E portanto, nunca aponto para o céu quando sei que só consigo chegar ao cimo de um prédio de 12 andares. E quando, de facto consigo chegar a algum lado, por muito imperfeito que seja o resultado, sinto-me sempre realizada, porque sei que o resultado concreto conseguido derivou de tudo aquilo que pus de meu na sua produção. Ou seja, não resultou apenas de quem eu sou ou do meu inconsciente, mas resultou do meu trabalho e da minha dedicação. E isto faz-me sentir-me realizada.
E o que dizer quando as pessoas necessitam de recorrer a ajuda externa para conseguir atingir o que de outro modo nunca conseguiriam? Conseguir chegar às nuvens quando só têm capacidade para aquele 12º andar?
Isto a mim soa-me tão mal como copiar. O resultado final pode ser nosso porque deriva de nós, de quem nós somos, mas… Foi feito com ajuda de substâncias que nos levam a sítios onde não conseguimos ir sozinhos. Se não conseguimos chegar lá por nós próprios não podemos nunca dizer que o resultado produzido é nosso. Não houve esforço. Não houve empenho.
Para mim os Tool fazem músicas, que eu considero quase perfeitas. Mas… Pensando bem, não são eles que verdadeiramente as fazem. Eles nunca conseguiriam chegar aos locais recônditos dos seus subconscientes por eles próprios. Eles são incapazes de reproduzir o processo criador. Na realidade, eles nem têm a mínima noção de como tudo se processa, de como chegaram ao resultado. Eles pura e simplesmente aplicam a substância externa e são meros meios de expressão do processo criativo. São como que objectos ou autómatos ao serviço do processo produtivo. Os únicos estímulos que lhe acrescentam são os desencadeadores, servindo posteriormente de meros receptáculos da criação. Eu também podia dar ordens a um computador para criar por mim, não podia? Mas… Ia sempre ficar a faltar algo de meu na obra final. Não é como se eu pudesse chamar à obra minha. Pouco de meu teria…
Num plano global o que eu acho é que o ser humano é imperfeito, e vai ser sempre imperfeito. Não vejo volta a dar a esta realidade durante a minha estimativa de vida. Mas isto é exactamente uma realidade. E é uma realidade com a qual temos que viver. Partimos sempre do input que nos é dado, ou seja, de que somos imperfeitos. E depois o que é que nos resta? Resta-nos aspirar à perfeição. Lutar a vida toda para chegarmos lá. Não desistir, não ficar pelo caminho, não viver a vida como um mero espectador enquanto tudo passa à nossa volta. É minha convicção que neste esforço tendente à perfeição iremos evoluir e acrescentar algo à humanidade. Algo que não existia antes e que é exclusivamente devido a nós e a mais ninguém. E cada pessoa que morre deixa cá o seu selo e a sua obra e tudo o que conseguiu atingir. E estas marcas deixadas por toda a gente que já povoou a humanidade constituem um ponto de partida para as gerações seguintes. Constituem o nosso património. E com cada geração estamos mais próximos da perfeição, porque caminhamos para lá pelos nossos pés. E este é um caminho que tem que ser feito na totalidade por nós. Não há desvios, não há atalhos.
E cada vez que algo é criado por agentes externos a nós estamos a negar quem somos, e a negar a nossa condição humana, e… A afastarmo-nos da perfeição, na medida em que não estamos a iluminar o caminho das gerações vindouras. Estamos a ser egoístas e a dar azo às emoções do momento, sem lhe atribuir uma finalidade superior.
Ao fim e ao cabo, temos que viver para nós, na medida em que temos que fazer nossas as coisas que criamos, mas estamos também a viver para a humanidade. A humanidade não evolui sem nós. Eu pessoalmente, prefiro dar utilidade aos meus actos. Posso não chegar nunca chegar a atingir a perfeição, mas, sei que quando ela for atingida, será também graças a mim, que estive cá, e que contribui. Nessa altura eu própria farei parte da perfeição… E esta ideia produz sentimentos ambivalentes em mim: paz de espírito e vontade de lutar. (and not surrender)
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