Poema da malta das naus
Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do sol.
Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo.
Pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.
Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.
Chamusquei o pêlo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.
Com a mão direita benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes no chão, bati-me,
outras mil me levantei.
Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.
Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.
Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
Do sonho, esse, fui eu.
O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas praias de Portugal.
In Teatro do Mundo, 1958
Que rico poema para o dia em que Portugal perdeu nas meias finais do Europeu para a França...
ResponderEliminarO jogo até nem foi um mau jogo, portanto, verdadeiramente não se nasce impunemente nas praias de Portugal. Aqui nascem bons jogadores... Não nascem os melhores jogadores, mas nascem dos bons.
Pena é que não possamos dizer que nascem aqui os bons políticos (isto apesar deles estarem espalhados pelos mais altos cargos...), bons economistas, bons actores, bons... Mas que temos cá bons inúteis, isso temos...
Viva a nós que tinhamos que ter algo de bom... Fosse o que fosse... E cá está... Ei-nos aqui...
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