06 fevereiro 2007

Real, irreal…

As árvores esbatem-se em sombra e fico farto da noite, como por vezes me farto do dia,
da monotonia impregnada no meu corpo nos meus hábitos.

Sempre gostei de procurar consolo perto das janelas da minha alma, finalmente essas janelas abriram-se e eu entrei, pé ante pé, com um certo receio, mas com muito agrado um pouco ingénuo, um pouco confiante.

Entrei pela janela, a janela fechou-se, nem era preciso, não mais tive vontade de sair de lá, o meu ser preencheu-se não mais precisei de desejar onde estou, pois estava onde queria, como se o todo se torna-se uno e todos se tornassem um.

Senti que finalmente surgiu em mim uma pessoa que nunca existiu.
Será que me sinto? Ou as minhas sensações é que me sentem a mim?
Sou eu que te vejo? Ou são os meus olhos que te vêm?
As janelas servem para ver, ou serão elas é que vêm através do que nos vemos através delas?

As vezes gostava que se pode-se fazer uma espécie de radiografia ou melhor dizendo uma visão transcendente para além da pele dos nervos dos nossos órgãos da nossa camada óssea, e que através disso se pode-se ver e entender o que somos o que sentimos, pensamos e desejamos.

Alguns pintores, pintam por vezes por cima de um quadro outro quadro, talvez com o intuito de esconder algo que só eles entendem que só a eles pertence e só eles entendem, conseguem sentir, escondendo o verdadeiro fruto da sua obra do seu sentir.
Sendo posteriormente o laser e o raio-x, traidores do seu sentir do intuito da realização da sua obra.

Quando morremos somos a imagem da tristeza e da verdade, quando as nossas janelas partem e os desejos são calcados como folhas secas, as nossas pálpebras serradas não nos permitem ver o que as simples janelas espalhadas por todo o lado vêm e compreendem impávidas e serenas, com a simplicidade que só a elas são confinadas, só elas vêm, entendem e se resignam, são serenas…

A nossa vida real é o nosso interior irreal, aí vemos quem somos como somos, vemo-nos olhando-nos para dentro, sem contudo nos vermos e nos sentirmos.

Os mortos não contam histórias, mas o facto de se estar vivo não facilita que se as possam viver, ou mesmo que se as possam contar.

O que amamos e desejamos é o corpo do nosso próprio desejo, unidos no tempo mutável que há em nós, na ilusão do mundo.

(Escrito em 22/04/2003)

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